Festa da Anunciação de Maria Santíssima – 25 de Março

domingo, 25 de março de 2012

Por Santo Afonso Maria de Ligório
São Gabriel - Anunciação - Beato AngélicoEcce concipies in utero et paries filium, et vocabis nomen eius Iesum — «Eis que conceberás e darás à luz um filho, e por-lhe-ás o nome de Jesus» (Luc 1, 31).
Sumário. Eis como Maria, enquanto na sua casa está suplicando a Deus pela vinda do Redentor, vê um anjo que a saúda e lhe anuncia ser ela mesma destinada para Mãe do Salvador. A humilde Virgenzinha, julgando-se nimiamente indigna de tamanha honra, fica toda perturbada; mas afinal dá o consentimento, e naquele mesmo instante o Verbo divino se tornou seu Filho. Ó grande Mãe de Deus, vós, tão privilegiada e tão humilde, nós tão pecadores e tão orgulhosos! Obtende-nos a santa humildade.
I. Querendo Deus enviar seu Filho para se fazer homem e assim remir o homem perdido, escolheu-lhe uma mãe virginal, entre todas as virgens a mais pura, a mais santa e a mais humilde. Enquanto Maria estava em sua pobre casa suplicando a Deus pela vinda do Redentor, eis que lhe aparece um anjo que a saúda e lhe diz: Ave gratia plena: Dominus tecum; benedicta tu in mulieribus (Luc 1, 28) — «Ave, cheia de graça: o Senhor é convosco; bendita sois vós entre as mulheres. Que faz a humilde Virgenzinha ouvindo tão elogiosas palavras? Não se desvanece, mas cala-se perturbada, julgando-se indigna de tais louvores: Turbata est in sermone eius — «Turbou-se com as suas palavras». — Ó Maria, vós tão humilde, e eu tão orgulhoso! Obtende-me a santa humildade.
Mas, ao menos aqueles louvores não fizeram surgir à Maria a ideia, que porventura fosse ela escolhida para Mãe do Redentor? Não, serviram tão somente para fazê-la entrar num grande temor, de modo que foi preciso que o anjo a animasse a não temer, porque tinha achado graça diante de Deus. E então anunciou-lhe que era escolhida para Mãe do Salvador do mundo: Ecce concipies in utero, et paries filium, et vocabis nomen eius Iesum — «Eis que conceberás, e darás à luz um filho, e por-lhe-ás o nome de Jesus».
Ora, pois, assim lhe fala São Bernardo, porque tardais, ó Virgem santa, a dar o consentimento? O Verbo Eterno espera-o para tomar a natureza humana e fazer-se vosso filho; também o esperamos nós, que estamos infelizmente condenado à morte eterna. Se consentirdes em ser Mãe do Redentor, todos nós seremos livres da morte eterna. Respondei, Senhora, depressa: não retardeis mais a salvação do mundo, que agora depende de vosso consentimento. Mas felizmente, eis que Maria já responde ao anjo: Ecce ancilla Domini, fiat mihi secundum verbum tuum. Eis aqui, diz a Virgem, eis aqui a escrava do Senhor, obrigada a fazer o que seu Senhor ordena. Se ele escolhe uma escrava para sua mãe, não se louve a escrava, mas unicamente a bondade do Senhor, que se digna honrá-la assim. — Ó Bem-Aventurada Virgem Maria, quanto soubestes agradar e ainda agradais a vosso Deus! Tende piedade de mim!
II. Ó Virgem imaculada e santa, das criaturas a mais humilde e maior diante de Deus! Éreis bem pequena a vossos próprios olhos, mas aos olhos de vosso Senhor éreis tão grande, que ele vos elevou a ponto de vos escolher para sua mãe. Dou graças a Deus por vos ter elevado tão alto, e me regozijo convosco ao ver-vos tão unida a Deus, que mais o não podia ser uma simples criatura. Vendo que juntais tamanha humildade a tantas perfeições, envergonho-me de aparecer diante de vós, orgulhoso como sou, não obstante tantos pecados. Mas, miserável como sou, quero saudar-vos.
Ave Maria, gratia plena: Vós sois cheia de graça, obtende-me uma parte dela. Dominus tecum: O Senhor foi sempre convosco, desde o primeiro instante da vossa existência, mas a vós se uniu muito mais estreitamente fazendo-se vosso filho. Benedicta tu in mulieribus: Ó mulher bendita entre todas as mulheres, obtende-nos também as divinas bênçãos. Et benedictus fructus ventris tui: Ó feliz planta, que destes aos mundo tão nobre e santo fruto!
Sancta Maria, Mater Dei: Ó Maria, reconheço que sois verdadeiramente Mãe de Deus, e em defesa desta verdade pronto estou a dar mil vezes a minha vida. Ora pro nobis peccatoribus: Se sois Mãe de Deus, sois também Mãe de nossa salvação, Mãe dos pobres pecadores, porque, para salvar os pecadores, é que Deus se fez homem, e se ele vos fez sua Mãe, é para que vossas orações tenham virtude de salvar qualquer pecador. Rogai então por nós, ó Maria — Nunc et in hora mortis nostrae. Rogai sempre: rogai agora que estamos expostos a mil tentações e perigos de perder a Deus; mas rogai sobretudo na hora de nossa morte, afim de que, salvos pelos merecimentos de Jesus Cristo e por vossa intercessão, possamos ir saudar-vos e louvar a vosso divino Filho e a vós, no céu, durante toda a eternidade.
«Ó Deus, que mediante a embaixada do anjo quisestes que vosso Verbo tomasse carne no seio da Bem-Aventurada Virgem Maria: concedei-me que, assim como a venero como verdadeira Mãe de Deus, seja ajudado pela sua intercessão junto a vós»[1]. Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo. (*I 340.)
[1] Or. festi.
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Santo Afonso Maria de Ligório. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Primeiro: Desde o primeiro Domingo do Advento até Semana Santa inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p.454-456.

Leia mais em: http://www.mulhercatolica.org/2012/03/festa-da-anunciacao-de-maria-santissima.html#ixzz1qBcu2vRr
Mulher Católica

Amor e Responsabilidade: sobre a razão e a sentimentalidade

Por Edward P. Sri

Como o "Sr. Certinho" acabou se tornando tão errado? Muitos jovens tiveram a experiência de “sentir” que estavam apaixonados por alguém que, à primeira vista, parecia absolutamente maravilhoso(a), tudo isso só para ficar muito desapontado(a) com a pessoa, desiludido(a) com o relacionamento, e talvez até descrente no sexo oposto como um todo.
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Em seu livro “Amor e Responsabilidade”, João Paulo II – então Karol Wojtyla – explica porque isso acontece com tanta frequência a homens e mulheres, e como podemos evitar essas desilusões no futuro.

Mais do que o físico

No último artigo vimos um poderoso aspecto da atração entre homem e mulher: a sensualidade. E vimos como essa atração física a maioria das vezes se caracteriza por um desejo de usufruir do corpo da outra pessoa como um objeto de prazer.

Há um segundo tipo de atração, entretanto, que vai além do desejo sexual pelo corpo, e que Wojtyla chama de “sentimentalidade”. Ela representa mais do que uma atração emocional entre os sexos.

Por exemplo, quando um rapaz conhece uma garota, além de notar sua beleza, ele também pode ficar bastante atraído pela sua feminilidade, sua personalidade acolhedora, sua graciosidade – ou, como Wojtyla chama, seu “charme” feminino. Do mesmo modo, quando a garota encontra um rapaz, ela pode não apenas reconhecer que ele é bonito, mas também descobrir em si mesma fortes sentimentos e admiração por sua masculinidade, suas virtudes, o modo como ele se porta – ou, como Wojtila chama, sua “força” masculina.

Tais reações emocionais para com pessoas do outro sexo acontecem o tempo todo. Elas podem evoluir gradativamente entre um homem e uma mulher, ou podem acontecer desde o primeiro instante em que se encontram. Podemos experimentar sentimentos afetuosos pelo cônjuge, um colega de trabalho, ou um amigo(a) de longa data. Ou podemos experimentá-los por uma pessoa que conhecemos em uma reunião, um estranho que vemos no shopping, ou mesmo um personagem fictício que vemos na TV.


A sentimentalidade pode ser parte do que leva ao amor autêntico. Mas, se não tomarmos cuidado, podemos facilmente ficar escravos de nossas emoções de maneiras tais que nos impede de sermos verdadeiramente capazes de amar outras pessoas.

Um navio afundando

O amor deve integrar nossas emoções. Em sua forma plena, o amor não deve ser uma decisão fria e calculada, isenta de sentimentos. Um esposo que diz: “Querida, eu te amo. Eu não tenho sentimentos de modo algum por você, mas saiba que lhe sou fiel”, não é a situação ideal. Nossas emoções devem ser incluídas no compromisso que firmamos para com a pessoa amada, enriquecendo o relacionamento e nos dando uma experiência ainda mais profunda de união com a outra pessoa. Como explica Wojtyla, “O amor sentimental mantém duas pessoas juntas, as faz ficar – mesmo quando estão fisicamente distantes – se movendo ‘na órbita’ um do outro... Uma pessoa nesse estado de espírito permanece mentalmente sempre perto da pessoa com quem ele ou ela tem laços de afeição” (Amor e Responsabilidade).

Entretanto, Wojtila se preocupa com o fato de que muitas pessoas hoje em dia pensam no amor apenas em termos de sentimentos. Suas preocupações parecem totalmente aplicáveis à uma cultura como a nossa, na qual canções de amor, filmes de romance e programas de TV estão constantemente apelando para nossas emoções, e nos fazendo desejar relacionamentos de rápido e emocionante envolvimento sentimental, como aquele envolvimento que Tom Hanks e Meg Ryan parecem ter nos filmes.

O verdadeiro amor, entretanto, é muito diferente do “amor de Hollywood”. O verdadeiro amor requer muito esforço. É uma virtude que envolve sacrifício, responsabilidade, e um total compromisso com a outra pessoa. O “amor de Hollywood” é uma emoção. É algo que apenas acontece com você. O foco não está em um compromisso com a outra pessoa, mas no que acontece dentro de você – os poderosos sentimentos agradáveis que você experimenta quando está com essa outra pessoa.

O fenômeno do filme “Titanic”, no final dos anos 90, mostra quantas pessoas se deixam levar pela ilusão do “amor de Hollywood”. Milhões de jovens retornavam várias vezes ao cinema para experimentar o romance emocionalmente intenso entre dois personagens do filme – um romance que se desenvolve entre duas pessoas que não se conhecem realmente, e que não possuem verdadeiro compromisso uma com a outra, mas que ainda assim era visto pelos espectadores como o tipo de amor ideal que duraria uma vida toda. Com esse tipo de modelo a imitar, não é de se surpreender que tantos de nossos relacionamentos na vida real terminem em um barco furado.

Claro que nossos sentimentos podem e devem ser incorporados em um amor plenamente desenvolvido (um tema que desenvolveremos em artigos posteriores). Entretanto, quando somos levados pela emoção acabamos evitando uma questão muito importante que é crucial para a estabilidade a longo prazo de um relacionamento: a questão da verdade. Devemos primeiramente e acima de tudo considerar a verdade sobre a outra pessoa, e a verdade sobre a qualidade do relacionamento com ele ou ela.

Evitando a questão da verdade

Um perigo de fazer dos sentimentos uma medida do nosso amor é que nossos sentimentos podem ser muito enganadores. Na verdade, Wojtyla diz que os sentimentos, em si, são “cegos”, pois não estão preocupados em saber a verdade sobre a outra pessoa. Portanto, nossos sentimentos sozinhos não são uma boa referência para guiar nossos relacionamentos.

Ele explica que descobrimos a verdade através do uso da nossa razão. Eu sei que 2 + 2 = 4 não porque eu sinta que é igual a 4. Eu chego à certeza dessa verdade através da minha razão. Nossos sentimentos, por outro lado. Não têm como tarefa a busca da verdade, diz Wojtyla.

Portanto, nossos sentimentos não serão de muita ajuda como guia para ver a verdade honesta sobre a outra pessoa e a verdade sobre o relacionamento. “Os sentimentos nascem espontaneamente – a atração que uma pessoa sente por outra geralmente começa de repente e de forma inesperada – mas essa reação é um efeito ‘cego’” (Amor e Responsabilidade).

Isso se torna especialmente claro quando consideramos o que aconteceu com nossas emoções depois do pecado original. Antes de o pecado entrar no mundo, o intelecto do homem facilmente direcionava sua vontade para escolher o que é bom e guiar suas emoções de modo que suas paixões fossem direcionadas para aquele bem.

Depois da queda do pecado original, entretanto, o intelecto parece não enxergar a verdade claramente, a vontade está enfraquecida em sua resolução de buscar o que é bom, e nossas emoções já não estão corretamente ordenadas, ficam a vagar em várias direções. Portanto, agora experimentamos muita instabilidade na esfera emocional e muitos altos e baixos caóticos (amor-ódio, esperança-medo, alegria-tristeza etc.) em nossas vidas. Ainda assim, ironicamente, a visão moderna de amor nos diz para procurar precisamente nossos “sentimentos” – para olhar justo no meio dessa montanha-russa emocional – a fim de encontrar uma medida infalível de nosso amor. Não é de espantar que haja tanta confusão e instabilidade em nossos relacionamentos hoje em dia!

É realmente isso mesmo?

Além do mais, não apenas os sentimentos não possuem a tarefa de procurar a verdade, mas também os sentimentos podem ser tão fortes que turvam nossa maneira de ver a outra pessoa. Wojtyla explica que quando somos levados pelas nossos emoções, a sentimentalidade pode diminuir nossa habilidade de conhecer aquela pessoa como ele ou ela realmente é.

É por isso que Wojtyla afirma que, em qualquer atração e envolvimento emocional, a questão da verdade sobre a pessoa é crucial: “É realmente isso mesmo?”. Devemos nos perguntar: “Ele ou ela tem mesmo essas qualidade e virtudes pelas quais estou tão atraído?”. “Ele ou ela é realmente digno(a) de minha confiança?”. “Há algum problema em nosso relacionamento que eu esteja negligenciando?”.

Nosso sentimentos não lidam com essas importantes questões. Na verdade, nossos sentimentos geralmente nos levam a evitar essas questões, deixando-nos com uma percepção distorcida e exagerada da pessoa.

“É por isso que em qualquer atração... a questão da verdade sobre a pessoa pela qual se sente atraído é tão importante. Devemos levar em consideração a tendência, produzida por toda uma dinâmica da vida emocional, da pessoa evitar a questão ‘é realmente isso mesmo?’. Nessas circunstâncias a pessoa não se pergunta se a outra pessoa realmente possui os valores que – aos olhos da sua paixão – ela parece ter, mas principalmente não se pergunta se o sentimento que acabou de surgir é uma emoção verdadeira” (Amor e Responsabilidade).

Isso, repito, não quer dizer que os sentimentos sejam ruins. Mas eles não podem ser o primeiro critério para discernir a verdade honesta sobre outra pessoa ou para avaliar claramente um relacionamento.

Fora de proporções

Essa tendência de ser levado pelas emoções e de evitar questões sobre a verdade é característico do amor sentimental. Temos a tendência de exagerar o valor da pessoa pela qual nutrimos sentimentos, diminuir o peso de suas faltas, e ignorar problemas que existem no relacionamento.

Aqui Wojtyla faz uma afirmação incrível sobre o quanto nossos sentimentos podem controlar nossa percepção da outra pessoa pela qual estamos tão atraídos. “Aos olhos de uma pessoa sentimentalmente atraída por outra, o valor da pessoa amada... cresce enormemente – via de regra fora de qualquer proporção com relação ao seu real valor” (Amor e Responsabilidade).

Você entendeu? Wojtyla não disse que nos estágios iniciais do amor sentimental nós “às vezes” exageramos o valor da pessoa. Ele disse que isso acontece via de regra – nós fazemos isso o tempo todo! E ele não disse que temos a tendência de exagerar o valor da pessoa só um pouquinho. Nós tendemos a idealizar o valor da pessoa “fora de qualquer proporção” em relação a quem ele ou ela é na realidade.

Portanto, devemos entrar nos relacionamentos com nossos olhos bem abertos. Se nós ingenuamente dizemos que não idealizamos a outra pessoa de modo algum, isso provavelmente é um sinal de que já fomos muito longe da realidade. Nesses estágios iniciais do amor, se somos muito rápidos para notar três ou quatro qualidades na pessoa amada, devemos ser igualmente rápidos em admitir que provavelmente estamos caindo na tendência de exagerar essas qualidades. Como explica Wojtila, “Uma variedade de valores são atribuídos à pessoa amada, as quais ele ou ela não possui na realidade. Esses são valores ideais, não reais” (Amor e Responsabilidade).

Por que temos a tendência de idealizar aqueles por quem nos sentimos atraídos? Esses “valores ideais” são aqueles que desejamos, com todo nosso coração, encontrar em outra pessoa um dia. Eles existem em nossos desejos, aspirações e sonhos mais profundos. Quando finalmente encontramos alguém com quem se tem o menor grau de sintonia, nossas emoções rapidamente tendem a evocar esses valores ideais e projetá-los sobre a pessoa.

Usando as pessoas emocionalmente

Quando falamos de um homem usando uma mulher tendemos a pensar em termos de ele usando ela para seu prazer sexual. Entretanto, Wojtyla chama a atenção que homem e mulher podem usar um ao outro também para um prazer emocional. Um devoto homem cristão, ou mulher cristã, pode ter um namoro completamente casto, mas ainda assim estar usando a outra pessoa por causa dos “sentimentos legais” que experimenta quando estão juntos, pela segurança emocional de ter um(a) namorado(a), ou pelo prazer que deriva de imaginar o dia do casamento com essa pessoa e esperar que ele ou ela seja finalmente a pessoa certa.

Se eu caio em tal idealização sentimental, a pessoa amada não é de fato a recebedora de minhas afeições. Ao invés, a outra pessoa é mais uma oportunidade para mim de usufruir dessas poderosas reações emocionais que tomam meu coração. Nesse caso, não amo realmente a outra pessoa por ela mesma, mas acabo usando-a pelo prazer emocional que obtenho de estar com ela. Como explica Wojtyla, o(a) amado(a) que é idealizado(a) “se torna meramente uma ocasião para uma descarga, na consciência emocional da pessoa, dos valores que ele ou ela deseja com todo seu coração encontrar na outra pessoa” (Amor e Responsabilidade).

Desilusão

Talvez o efeito mais trágico da idealização sentimental é que nós terminamos sem sequer conhecer a pessoa pela qual nos sentimos tão atraídos. Por exemplo, um homem vivendo um amor sentimental pode procurar estar perto da amada, passar muito tempo com ela, conversar com ela, e até mesmo ir para a Missa com ela, e rezar por ela. Entretanto, se ele a idealizou, ele permanece bem distante dela – pois a poderosa afeição que ele sente por ela não depende de seu real valor, mas apenas dos “valores ideais” que ele projetou nela.

Inevitavelmente, essa sentimentalidade, quando não corrigida, resulta em grande desilusão. Pois quando a pessoa real não consegue corresponder ao ideal, os fortes sentimentos começarão a diminuir, e já não haverá muita coisa para segurar o relacionamento. O amante estará bem desapontado com a amada. Portanto, muito embora o casal possa dar toda aparência de estar emocionalmente em sintonia, eles permanecem de fato bastante divididos um do outro. Eles podem até nem se conhecer de verdade, e podem estar até mesmo usando um ao outro pelo prazer emocional que obtém dessa idealização.
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O Autor: Edward Sri é professor assistente de Teologia do Benedictine College em Atchinson, Kansas, Estados Unidos, e autor de vários livros de Teologia e espiritualidade.
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Traduzido de: http://catholiceducation.org/articles/parenting/pa0111.html

Fonte:http://vidaecastidade.blogspot.com.br/

O sentido esponsal do corpo e a pornografia.




A revolução sexual tem sido comparada a um esgoto com muitos bueiros. A pornografia e a masturbação são dois “bueiros” desse “esgoto”. A sexualidade pode se tornar perversa. Ao invés de tornar as pessoas livres, como deve acontecer com marido e mulher, o sexo se torna uma forma de escravidão.

A pornografia e a masturbação representam a destruição do sentido esponsal e simbólico do corpo humano. Na pornografia se apresenta uma imagem. O foco está tão somente no visível e no erótico. A pessoa humana é reduzida ao que pode ser visto. Não há nenhum traço da dimensão invisível – da intimidade e sacralidade da pessoa humana. Note-se, também, que na pornografia não há ninguém ali. É um mundo de fantasia. Ninguém está realmente presente.

Portanto, quando um homem olha repetidamente para pornografia, ele encontrará dificuldade em se relacionar com mulheres na vida real. Ele se acostuma a ver as mulheres como objetos a serem usados. Ele se contenta com uma visão apenas erótica da mulher, e por isso destrói o sentido esponsal e simbólico do corpo humano. A luxúria toma o lugar do amor, e a fantasia substitui a realidade.

Muito disso tudo pode ser dito também da masturbação. Ela é um mundo irreal de fantasia. Note-se, entretanto, o modo como a masturbação destrói o sentido esponsal do corpo. Deus dotou todos os homens e mulheres de energia sexual. Chamamos talvez de desejo sexual. Isso é bom, e faz parte da atração entre homem e mulher, que é parte constituinte do sentido esponsal do corpo. A energia sexual, portanto, precisa encontrar sua expressão no amor, não na luxúria.

A energia erótica foi feita para ser direcionada a outra pessoa, no amor. Se você é homem, então ela se direciona para a mulher, e vice versa. Na masturbação a energia sexual se volta para si mesmo. A pessoa se torna sexualmente “vesga”. O que foi feito para uma outra pessoa se volta para a gratificação de si mesmo. A masturbação, portanto, é um símbolo não do amor, mas do egoísmo.
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Trecho do Livro: “Theology of the Body Made Simple”, de Anthony Percy, p. 63.

Tem como saber se estou amando de verdade?




Jason Evert

Nunca se pode avaliar uma relação pela intensidade dos sentimentos, porque eles vão e vêm, sobem e baixam.

Sentir-se apaixonado é emocionante, mas nunca se deve confundir a emoção com o amor. Por exemplo, um rapaz pode ter sentimentos verdadeiros por uma garota, mas isso não garante que ele a ame. A verdadeira medida do amor é fazer o bem à pessoa amada. Claro, isso não é fácil. Por isso o amor verdadeiro é algo escasso, e isso o faz mais belo e valioso.

O contrário de amar é usar. Por exemplo, os rapazes frequentemente usam as garotas para sua satisfação física, e as garotas usam os rapazes para sua satisfação social ou emocional. Mas nunca estão satisfeitos.

Tenho falado com milhares de alunas de colégio e de universidade e nunca encontrei uma garota sequer quer quisesse ter uma série de relações físicas. Mas encontrei, sim, um número incontável de mulheres que buscam o amor fazendo isso. Talvez estejam confundindo a atração física com o amor, ou buscam confirmar seu próprio valor, coisa que seus pais nunca lhes demonstraram. De qualquer maneira, essas garotas não encontraram o que buscavam.

Da mesma maneira, encontrei-me com “sedutores” que dizem que desejam saber como é amar a uma mulher em vez de usá-la ou de fazer-lhe mal. Não era sua intenção ferir as garotas, mas ninguém lhes ensinou como tratar as mulheres com reverência. Insatisfeitos com uma vida de “ficas” e sexo casual, no longo prazo se deram conta de que o conquistar uma mulher sexualmente era perder a razão pela qual são homens. Unicamente na entrega de si mesmos em um amor autêntico podiam se encontrar.

Se você vive uma vida sexual ativa e está tratando de descobrir se realmente é amor, faça a prova do amor. Retire a parte sexual de sua relação e viva a virtude da castidade. Quando passa a paixão sexual, se pode ver se havia amor desde o princípio, se lhe amam como pessoa. Não tenha medo de fazer isso, porque somente quando o amor é colocado à prova é que se pode ver seu verdadeiro valor. (1)
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(1)Karol Wojtila, Amor e Responsabilidade (San Francisco, Ignatius Press, 1993), p. 134.

Trecho do livro “Amor Puro”, de Jason Evert. San Diego: Catholic Answers, 2007.

O que significa ser uma mulher de Deus?

domingo, 18 de março de 2012

Retirado do blog Vida e Castidade
O que significa ser uma mulher de Deus?

Por Jessica Doman, do Theology of the Body Evangelization Team

      Psst!! Você é uma mulher! Talvez você não pense muito sobre isso, mas você é uma mulher. Seu corpo tem um significado. Ele é nupcial, ele é chamado à comunhão. Se vivermos de acordo com o significado do nosso corpo, seremos felizes, se não, destruiremos a nós mesmas. Deus nos ama. Ele nos fez de certo modo para que sejamos felizes, então se vivermos de acordo com nossa feminilidade, seremos felizes. Seu corpo feminino fala de sua dignidade. A feminilidade expressa o “humano” tanto quanto a masculinidade, mas de modo diferente e complementar. Qual o significado de nosso corpo feminino?

Nosso corpo fala algo sobre nossa alma

      Lembre-se que Deus nos ama. Se vivermos de acordo com nossa feminilidade, seremos felizes. Veja como homem e mulher se complementam. O homem é direcionado para o exterior (é o iniciador). Mulheres são direcionadas para o interior (receptivas), e recebem para poder dar de volta. O corpo feminino, diferente do masculino, foi criado com um espaço vazio em seu interior, para que seja receptiva e possa nutrir a vida. Seu corpo feminino revela a todos que a humanidade inteira é chamada a ser noiva. Jesus veio como homem porque Ele é o noivo, e a humanidade é a noiva – todos são chamados a receber a vida de Deus em nós, e fazê-la frutificar. O corpo da mulher dá vida ao plano de Deus.
Mulheres como modelo da humanidade

      Deus sempre se revela como noivo – a humanidade é fundamentalmente feminina com relação a Deus, ou seja, recebe o amor de Deus. Em troca, somos chamados a nos doar para Deus. As mulheres são o arquétipo da humanidade, o modelo para o qual toda humanidade é chamada a ser diante de Deus que cria a vida. Assim como toda mulher foi feita para receber o amor do marido, toda a humanidade foi criada para receber o amor de Deus.

A mulher como companhia do homem

      A mulher veio ao mundo como dom dado ao homem. Sozinho, o homem não realizaria completamente seu propósito. Ser companhia significa que a mulher ajuda o homem a descobrir sua própria humanidade. Ela mostra ao homem como fazer essa entrega sincera de si. Sem ela, o homem não compreenderia completamente o sentido de sua existência. Sela ela, ele estaria sozinho. Com a mulher, o homem aprende o significado da vida de união e comunhão através de um sincero doar-se a si mesmo. A união expressa o aspecto físico (duas pessoas – homem e mulher – pessoa e Deus), e a comunhão expressa o aspecto espiritual (um só Corpo em Cristo).

Maternidade física e espiritual

      O modo como nosso corpo feminino foi feito nos fala de maternidade. Basta pensar no útero, um espaço vazio no nosso interior, pronto para receber outra pessoa em nossa vida, e para nutrir a pessoa fisicamente e também em santidade. Nós desejamos profundamente a união, com o esposo e com o bebê no nosso interior, essa é a maneira com que Deus nos fez, diferente dos homens. Cada mulher é chamada a ser esposa e mãe, e trazer a vida para o mundo. Podemos fazer isso não apenas no casamento, mas também cuidando e nutrindo a vida espiritual, emocional, cultural, moral e física dos outros. Podemos fazer isso através de um sorriso, dando atenção a quem sofre, ensinando, cuidando dos doentes, rezando. Peça ao Espírito Santo para que lhe ajude a acolher outras pessoas em sua vida e ser espiritualmente frutuosa.

      Ao se doar aos outros no dia-a-dia a mulher realiza sua mais profunda vocação. Talvez mais do que os homens, as mulheres conhecem as pessoas, porque vêem com o coração...

 


Receptividade
      Estamos falando muito sobre receber, mas não é um receber passivo, e sim ativo. Recebemos para poder doar em troca. Receber a vida de Deus, para levá-la ao mundo! A própria maneira como nosso corpo é formado fala de relação. Só conseguimos nos encontrar como pessoas quando nos doamos a nós mesmas – precisamos de pessoas para nos relacionar. Talvez a gente encontre mais mulheres na Igreja justamente porque a fé é a abertura e a receptividade do coração humano ao dom de Deus – e as mulheres sabem ser receptivas.


Maria, nosso Modelo

     “Que se faça de acordo com vossa vontade”. Maria colocou-se nas mãos de Deus, e isso trouxe o Salvador para o mundo. Maria é o perfeito exemplo de frutuosidade. Essa recebeu o amor de Deus em seu ventre (em seu útero), e o trouxe para o mundo.


O ataque às mulheres

      Se o inimigo quer nos manter longe do mistério de Deus, ele irá atacar a união sexual e a mulher. Por isso, os ataques à feminilidade e à mulher são tão fortes. Distorcer a imagem da mulher irá evitar que o amor e a vida possam vir ao mundo. A vulnerabilidade da mulher é sua necessidade de receber, e quando oferecem a ela algo que não seja amor, ela reage – reage à dominação do homem. As feministas reagem à dominação masculina (com certa razão), mas a igualdade na dignidade não quer dizer semelhança. Não precisamos nos tornar homens para ter dignidade – nós temos nossa própria dignidade.

     O resultado do pecado original é que se tornou difícil ser imagem de Deus. O dom da fertilidade se tornou doloroso (“entre dores trarás teus filhos ao mundo”). Mulheres que rejeitam sua feminilidade vêem a maternidade como um peso ao invés de ver como bênção (isso pode levar a depressão, barreiras). Lembre-se, Deus nos ama, ser fértil, ser frutuosa, ser um dom, é a chave para a sua felicidade.


       Hoje o corpo feminino é degradado, é usado para vender, como entretenimento, para o prazer. A sociedade sofre e se torna uma cultura de morte – a vida deixa de vir ao mundo.



Castidade

      A mulher experimenta sua queda, ou sua fraqueza, como uma gratificação emocional às custas do homem, e o homem experimenta sua queda ou fraqueza como gratificação física às custas da mulher. Ou seja, as mulheres usam os homens para obter prazer emocional (se sentirem amadas e desejadas) e os homens usam as mulheres para obter prazer físico. É por isso que a modéstia no vestir é tão importante. Os rapazes estão lutando para permanecer puros – ajude-os a serem santos! Deixe-os ser verdadeiramente homens!


      Sabemos que, como mulheres, não fomos feitas nunca, nunca para ser usadas como objetos para o prazer do homem. Quando nos vestimos provocantemente, permitimos que os homens nos usem. O mundo nos diz que namorar significa usar e se deixar ser usada. Não é assim.


      O desejo de ser amada e estar próxima a alguém pode ser muito grande. Você pode sentir esse desejo, não tenha vergonha dele, nem o rejeite. Agradeça a Deus pelo dom de sua feminilidade, de querer amar como Deus ama. Peça ajuda para ser uma verdadeira mulher e mostrar ao homem como ser um verdadeiro homem.


      Diga não para as mentiras do inimigo. “Você precisa se vestir provocantemente, ser sensual, para ser uma verdadeira mulher”. “Seu corpo é para o prazer do homem”. “Para ser igual ao homem, você precisa ser como um homem, livre da maternidade biológica”. “Suas emoções te fazem fraca e inferior”. Tudo isso são mentiras.


     A Igreja deseja agradecer à Trindade Santa pelo mistério da mulher, e por cada mulher – por tudo que constitui sua dignidade feminina, pela grandeza da obra de Deus que tem se mostrado ao longo da história através dela.

Parresía: "Feminismo: O maior inimigo das mulheres"

Da excelência da Modéstia

Amor e Responsabilidade: entendendo corretamente as bases da amizade

  
Por Edward P. Sri (baseado em seu livro "Men, Women and the Mystery of Love")

   O que um padre celibatário pode nos ensinar sobre amor, sexualidade, e relacionamentos entre homem e mulher?

      Essa é a pergunta que um padre polonês, Karol Wojtyla, se fez na introdução de seu livro revolucionário, "Amor e Responsabilidade". Publicado em 1960, esse livro sobre a ética sexual foi fruto do extenso trabalho pastoral do Pe. Wojtyla com jovens, e das reflexões filosóficas que fez sobre esse tema quando ainda servia como sacerdote e professor universitário em Cracóvia - muito antes do mundo conhecê-lo como João Paulo II.

      No livro "Amor e Responsabilidade", o Pe. Wojtyla argumenta que, apesar de faltar ao sacerdote a experiência direta do casamento e da sexualidade, ainda assim existe algo que lhe confere uma perspectiva ainda mais ampla nesses assuntos: uma vasta "experiência secundária". Como conselheiro espiritual que trabalhava bem próximo a muitos jovens adultos e jovens casais em meio a suas batalhas no campo do amor e da sexualidade, Pe. Wojtyla pôde aprender com a experiência de lidar com um variado espectro de personalidades, relacionamentos e casamentos, de um modo tal que não seria possível a um homem leigo. "Amor e Responsabilidade" foi o fruto dessa rica experiência pastoral, bem como de suas próprias reflexões filosóficas e teológicas sobre o amor, o sexo e o matrimônio.

Um grande livro

      Janet Smith, dos Estados Unidos, uma das grandes palestrantes de ética sexual, afirma que "Amor e Responsabilidade" não é apenas um livro importante. Ela diz que esse livro deveria ser reconhecido como uma das maiores obras da civilização ocidental. Segundo ela, deveríamos colocar "Amor e Responsabilidade" junto com a "Ilíada" de Homero, a "Divina Comédia" de Dante, as "Confissões" de Santo Agostinho, na lista dos grandes livros do mundo, pelos séculos que virão. Ela diz: "Eu acredito que o livro do Papa João Paulo II deve figurar nessa lista por achar que as gerações futuras irão ler esse livro - elas certamente o devem fazer, pois se o fizerem verão que o livro enfrenta com firmeza questões que todo temos sobre a vida, além de oferecer uma maneira de ver as relações humanas que, se aceita, pode alterar radicalmente a maneira com a qual conduzimos nossas vidas". (1)

      De fato, "Amor e Responsabilidade" fornece insights sobre o relaiconamento homem-mulher que realmente são capazes de mudar vidas - e são desesperadamente necessários hoje em dia. A nova geração, crescida no período pós-revolução sexual, está sedenta por qualquer direcionamento que a ajude a conduzir seus relacionamentos com o sexo oposto. Solteiros, noivos e jovens casais encontrarão em "Amor e Responsabilidade" não apenas uma perspectiva diferente de tudo que o mundo tende a oferecer, mas uma visão que, uma vez encontrada, certamente terá um impacto positivo na maneira com que nos relacionamos com os outros.

Nesta curta série de artigos, meus objetivos são modestos. Não pretendo oferecer uma análise acadêmica desse livro, nem entrar em debates eruditos sobre ética sexual. Pretendo, apenas, tornar mais acessíveis aos leitores leigos alguns dos insights dessa desafiante obra filosófica, e oferecer algumas de minhas próprias reflexões durante esse caminho, com a esperança de que os leitores possam se beneficiar da visão que o Papa João Paulo II tem sobre o amor e a sexualidade, e para que possam encontrar aplicações em suas próprias vidas.

O princípio personalista

      O primeiro grande objetivo do Papa João Paulo II no livro “Amor e Responsabilidade” é explicar o que ele chama de “princípio personalista”. De acordo com esse princípio fundamental para as relações humanas, “uma pessoa não deve ser para a outra pessoa apenas um meio para atingir um fim”. Em outras palavras, nunca devemos tratar as pessoas como meros instrumentos para atingir nossos próprios objetivos.

      João Paulo II explica porque deve ser assim. As pessoas humanas são capazes de autodeterminação. Ao contrário dos animais, que agem de acordo com seus instintos e apetites, os seres humanos podem agir deliberadamente. Através da autorreflexão, as pessoas podem escolher um curso de ação para si mesmas, e impor seu “mundo interior” para o mundo exterior através de suas escolhas. Tratar uma pessoa humana como mero instrumento para meus próprios objetivos é violar a dignidade da pessoa como ser que pode se autodeterminar. “Toda pessoa é, por natureza, capaz de determinar seus próprios fins. Qualquer um que trate uma pessoa como um meio para um fim violenta a própria essência do outro” (trecho do livro Amor e Responsabilidade).

Amar ou usar?

      O que torna difícil viver na prática esse princípio básico das relações humanas é o espírito de utilitarianismo que permeia nossa sociedade Na visão utilitarista, as melhores ações humanas são aquelas que são mais úteis. E útil é aquilo que maximiza meu prazer e conforto e minimiza minha dor. A pressuposição que está por trás desse pensamento é que a felicidade consiste no prazer. Portanto, eu deveria sempre, segundo essa visão, perseguir tudo que me desse conforto, vantagem e benefício, e deveria evitar tudo que causasse sofrimento, desvantagem e perda.

      Essa visão utilitarista afeta a maneira com que nos relacionamos com o outro. Se meu objetivo principal é perseguir meu próprio prazer, então eu faço as escolhas na minha vida com base em quanto elas me levarão a esse objetivo. Disso resuta que muitas pessoas hoje em dia – até mesmo bons cristãos – podem avaliar um relacionamento em termos de quão útil uma pessoa é para que eu atinja esse objetivo, ou quanta “diversão” eu tenho com essa pessoa. O Papa João Paulo II diz que, uma vez adotada essa atitude utilitária, começamos a reduzir as pessoas em nossas vidas a simples objetos que usamos para nosso próprio prazer.

      Isso ajuda a explicar porque muitas amizades e “namoros” (e até mesmo casamentos) hoje em dia são tão frágeis e tão facilmente se dissolvem. Se eu avalio uma mulher com base apenas no que ela pode me trazer de “vantagem”, ou apenas com base no quanto eu posso obter de prazer estando com ela, então esse relacionamento não tem fundamentos sólidos. Assim que eu deixar de experimentar prazer ou benefício do tempo que passo com ela – ou assim que eu encontre outra pessoa que me dê mais prazer ou benefício –, ela passa a não valer mais nada para mim. Essa visão é muito distante do princípio personalista, e mais distante ainda de um relacionamento baseado no amor compromissado.

Amor e amizade

      Aqui, pode ser útil mencionar os diferentes tipos de amizade, de acordo com Aristóteles, a quem o Papa João Paulo II cita na sua discussão sobre o amor.

      Para Aristóteles, há três tipos de amizade, baseados em três tipos de afeição que unem as pessoas. Primeiramente, em uma amizade “por utilidade”, a afeição está baseada no benefício ou uso que os amigos extraem do relacionamento. Cada pessoa ganha alguma coisa com a amizade que serve a seu benefício, e o benefício mútuo da relação é o que une as duas pessoas.

     Por exemplo, muitas amizades no ambiente de trabalho estão nessa categoria. Digamos que Bob possui uma empresa de construção civil em Boston. Ele tem uma amizade com Sam em São Francisco porque Sam vende pelo melhor preço o tipo de parafuso que Bob precisa. Para realizarem seus negócios Bob e Sam se encontram algumas vezes no ano, falam no telefone mais ou menos uma vez por semana, e trocam e-mails com certa frequência. Ao longo dos anos fazendo negócios, os dois aprenderam sobre a carreira, a família e os interesses do outro. Eles se dão bem, e sinceramente desejam tudo de bom na vida da outra pessoa. Eles são amigos, mas o que os une é o benefício particular que ganham com a amizade: parafusos para Bob e vendas para Sam.

      Em segundo lugar, em uma amizade “por satisfação” a base da afeição é o prazer que se tira do relacionamento. Vê-se o amigo como a causa de algum prazer ou satisfação para si. Essa amizade busca sobretudo ter “diversão” com a outra pessoa. Os amigos podem escutar o mesmo tipo de música, praticar o mesmo esporte, gostar do mesmo tipo de atividade física, viver no mesmo dormitório, ou gostar de sair para as mesmas baladas. As duas pessoas podem se importar sinceramente com o outro, e desejar para o outro tudo de bom na vida, mas o que os une como amigos é primariamente o prazer ou a “diversão” que vivenciam juntos.

Fundamentos frágeis

      Aristóteles nota que os tipos de amizade “por utilidade” e “por satisfação” são formas básicas de amizade, e não representam a amizade no sentido mais pleno. Amizades “por utilidade” e “por satisfação” não são necessariamente ruins, porém são as mais frágeis. Têm menos probabilidade de sobreviver ao teste do tempo, porque quando não existem mais os mútuos benefícios ou a “diversão” já não resta mais nada a unir as duas pessoas. Por exemplo, se Sam deixasse de vender parafusos, e passasse a vender livros, o que aconteceria com sua amizade com Bob, já que ele não venderia mais os parafusos que Bob precisa? Eles poderiam até trocar cartões de Natal, e e-mails de vez em quando, mas a amizade começaria a se dissolver, pois eles não precisariam mais se comunicar regularmente para tratar de negócios. A relação não é mais mutuamente benéfica.

      De modo similar, na amizade “por satisfação”, quando os interesses de uma pessoa mudam, ou quando alguém se muda e não está mais por perto para compartilhar os momentos “de diversão”, provavelmente a amizade se esvanece. Isso ajuda a explicar porque a amizade entre os jovens muda com tanta rapidez. No processo de mudança do colégio para a faculdade e depois para o mundo profissional eles amadurecem, e seus interesses, valores, convicções morais e localizações geográficas tendem a sofrer muitas mudanças. Se suas amizades nesse período de transição não está baseado em algo mais profundo do que o simples fato de viverem no mesmo dormitório, praticar o mesmo esporte, e se divertirem juntos, as amizades provavelmente se dissolverão com o tempo.

      Essas amizades baseadas em momentos de “diversão” juntos tendem a não continuarem depois que as experiências agradáveis não se encontram mais ali para serem compartilhadas.

Amizade virtuosa

      Para Aristóteles, a terceira forma de amizade é a amizade no sentido pleno. Pode ser chamada amizade virtuosa porque os dois amigos estão unidos não por interesses próprios, mas por interesse em um objetivo comum: a “vida virtuosa”, a vida moral que se encontra na virtude.

      O problema das amizades por prazer ou utilidade é que a ênfase está no que eu obtenho com ela. Entretanto, na amizade virtuosa, os dois amigos estão comprometidos em alcançar algo fora de si mesmos, algo que vai além de seus interesses pessoais. E esse bem maior é o que os une na amizade. Lutando lado a lado pela vida virtuosa, e encorajando um ao outro na vivência das virtudes, o amigo verdadeiro não se preocupa com o que vai obter do relacionamento, mas com o que é melhor para seu amigo e se preocupa em alcançar a vida virtuosa com seu amigo.

O que faz iniciar ou terminar um relacionamento

      Com esse contexto em mente, o Papa João Paulo II nos fornecer a chave para evitar que nossos relacionamentos caiam nas águas egoístas do utilitarianismo. Ele diz que a única maneira de dois seres humanos evitarem usar um ao outro é se relacionar em vista de um bem comum, como na amizade virtuosa. Se a outra pessoa vê o que é bom para mim, e adota isso como bem para si própria, “estabelece-se uma ligação especial entre eu e essa outra pessoa: a união de um bem comum e de um objetivo em comum”. Esse objetivo comum une as pessoas interiormente. Quando não vivemos nossos relacionamentos com esse bem comum em mente, inevitavelmente trataremos a outra pessoa como um meio para um fim, para algum prazer ou uso.

      Especialmente no casamento, há uma tentação a se portar de forma egoísta, a querer que o cônjuge ou os filhos se adaptem a nossos próprios planos, agendas e desejos. Por exemplo, quando se aproxima o final de semana, eu posso pensar apenas nas coisas que quero fazer – projetos que desejo completar em casa, trabalho que preciso realizar, eventos esportivos que quero assistir – sem dar prioridade ao que meu cônjuge ou meus filhos possas precisar de mim. Eu posso alegremente concordar em gastar dinheiro com coisas que são importantes para mim, mas resistir firmemente aos desejos de minha mulher de investir em algo que não me beneficia diretamente, mesmo sendo importante para nossa família.

     Entretanto, o Papa João Paulo II nos lembra que a amizade verdadeira, especialmente a amizade no matrimônio, deve ser centrada na união por um bem comum. No matrimônio cristão, esse objetivo comum envolve a união dos esposos, e o serviço um ao outro, ajudando um ao outro a crescer em santidade, e também a procriação e a educação dos filhos.

     Nossas próprias preferências e agendas devem estar subordinadas a esses bens maiores. Marido e mulher devem estar subordinados um ao outro para o bem dos filhos, buscando evitar que qualquer individualismo egoísta atrapalhe a família. Como em um time, marido e mulher trabalham em prol desse bem comum, e discernem juntos como usar melhor seu tempo, energia e recursos para atingir esses bens comuns do matrimônio.

     O Papa João Paulo II explica como a união em torno desse bem comum garante que uma pessoa não esteja sendo usada ou negligenciada por outra. “Quando duas pessoas diferentes conscientemente escolhem um objetivo comum, isso as coloca em igualdade e afasta a possibilidade de uma estar sendo subordinada a outra. Ambas... por assim dizer... estão subordinadas àquele bem que constitui o objetivo comum”.

     Sem essa finalidade comum, nossos relacionamentos inevitavelmente cairão em algum tipo de utilização da outra pessoa para nosso benefício ou prazer. No próximo artigo, consideraremos quão crucial esses pontos fundamentais de “Amor e Responsabilidade” são no trato com as atrações emocionais e físicas que tantas vezes experimentamos quando encontramos pessoas do outro sexo.

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Notas:
(1) Janet Smith, “John Paul II and Humanae Vitae” in Why Humanae Vitae was Right (San Francisco: Ignatius Press, 1993), 232.
(2) For a more extensive treatment of friendship in Aristotle, see J. Cuddeback, Friendship: The Art of Happiness (Greeley, CO: Epic, 2003).


O Autor: Edward Sri é professor assistente de Teologia do Benedictine College em Atchinson, Kansas, Estados Unidos, e autor de vários livros de Teologia e espiritualidade.

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Traduzido de: http://www.catholiceducation.org/articles/marriage/mf0078.html

Amor e Responsabilidade: evitando atrações fatais

Por Edward P. Sri (baseado no seu livro “Men, Women and the Mystery of Love”)

      Um homem almoçando em um restaurante observa uma mulher atraente em outra mesa, e sua beleza imediatamente captura sua atenção. Seu coração bate mais forte, e ele se descobre desejando vê-la de novo.


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      Mais ainda: não é a primeira vez que ela atrai seu olhar. E sua atração para ela é mais do que física. Ela trabalha para a mesma grande companhia, e ele sente-se fascinado pela sua personalidade acolhedora, seu sorriso cativante e sua gentileza no trato com os outros. Ele está apaixonado pela sua brilhante personalidade tanto quanto pela sua beleza natural.

      Atrações básicas como essa acontecem todo tempo entre homem e mulher. Algumas vezes elas se fazem sentir bem rapidamente: um homem na fila do supermercado pode se sentir imediatamente atraído por uma mulher que vê passar. Uma mulher na Igreja pode notar um homem rezando no final da Missa, e se descobrir pensando nele o resto do dia. Algumas vezes as atrações mais profundas demoram um longo tempo para se desenvolver: um homem e uma mulher que foram amigos ou colegas por muitos meses podem gradualmente se atraírem um ao outro emocionalmente e fisicamente.

      Em seu livro “Amor e Responsabilidade”, João Paulo II analisa a anatomia de uma atração. O que está realmente acontecendo quando homem e mulher se encontram atraídos um pelo outro?

A anatomia de uma atração

      Comecemos explicando alguns dos termos que o Papa João Paulo II utiliza. Em um nível mais básico, atrair alguém significa ser considerado por aquela pessoa como um bem. Por sua vez, ser atraído por outro alguém significa que eu percebo algum valor naquela pessoa (valor tal como sua beleza, virtude, personalidade etc.), e que eu respondo a esse valor. Essa atração envolve os sentidos, a mente, a vontade, as emoções, e nossos desejos.

      A razão pela qual homem e mulher se atraem tão facilmente um ao outro é o impulso sexual. Lembre-se que o impulso sexual é a tendência de procurar o sexo oposto. Com o impulso sexual, ficamos particularmente orientados na direção das qualidades fisiológicas e psicológicas de uma pessoa do sexo oposto – seu corpo e sua masculinidade ou feminilidade. João Paulo II chama essas qualidades físicas e psicológicas de “valores sexuais” de uma pessoa.

      Portanto, uma pessoa fica facilmente atraída por outra do sexo oposto de duas maneiras: fisicamente e emocionalmente. Primeiramente, um homem fica atraído fisicamente pelo corpo de uma mulher, e uma mulher fica atraída ao corpo de um homem. O Papa chama essa atração ao corpo de sensualidade.

      Em segundo lugar, um homem também se atrai emocionalmente pela feminilidade de uma mulher, e a mulher fica emocionalmente atraída pela masculinidade de um homem. O Papa João Paulo II chama essa atração emocional de sentimentalidade.

      Nos próximos artigos, refletiremos sobre o papel das emoções e da sentimentalidade. No presente artigo, focalizaremos a atração sensual que homem e mulher experimentam um pelo outro.

Razão e sensualidade

      Como vimos, a sensualidade está ligada ao valor sexual inerente ao corpo da pessoa do sexo oposto. Tal atração não é má em si mesma porque o impulso sexual deve nos levar não apenas para o corpo, mas para o corpo de uma pessoa. Portanto, uma reação sensual inicial deve nos orientar para a comunhão pessoal (não apenas a união corporal), e pode servir como um ingrediente do autêntico amor se estiver integrado com aspectos mais elevados e nobres do amor – tais como a vontade, a amizade, a virtude, ou o compromisso de doação de si.

      Não obstante, o Papa diz que as atrações sensuais, por si mesmas, podem levar a grande perigos. Primeiramente, “a sensualidade por si própria não é amor, e pode facilmente se transformar no seu oposto”. A razão pela qual a sensualidade pode ser tão perigosa é que, por si mesma, ela cai facilmente em utilitarianismo. Quando somente a sensualidade é instigada, experimentamos o corpo da outra pessoa como “um potencial objeto de prazer”. Reduzimos a pessoa a suas qualidades físicas – sua beleza, seu corpo. E vemos a pessoa primariamente em termos do prazer que podemos experimentar a partir dessas qualidades.

      O que é mais trágico aqui é que o desejo sensual, que deveria nos orientar na direção da comunhão com a pessoa do sexo oposto, pode na verdade impedir de amar essa pessoa. Um homem, por exemplo, pode sensualmente ponderar em sua mente ou ativamente procurar o corpo de uma mulher como meio para gratificação sexual. E ele pode fazer isso sem nenhum interesse real nela como pessoa. Ele pode concentrar-se em seus valores sexuais – e no prazer que consegue a partir desses valores – ao ponto tal em que sua atração sensual ao seu corpo na verdade o impede de responder ao seu valor como pessoa. É por isso que o Papa João Paulo II diz que a sensualidade por si mesma cega a pessoa. “A sensualidade em si mesma tem uma ‘orientação de consumo’ – dirige-se primariamente e imediatamente ao ‘corpo’: toca a pessoa apenas indiretamente, e tende a evitar o contato direto”.

Gosta de chocolate?

      Em segundo lugar, o Papa diz que a sensualidade, em si mesma, não apenas deixa de alcançar a pessoa, mas chega até a falhar na apreensão da beleza do corpo. Ele explica como a beleza é experimentada através da contemplação, não através do pujante desejo de usufruir. Quando estamos contemplando o esplendor de uma paisagem, um pôr do sol, uma obra de música ou um trabalho artístico, ficamos tomados pela beleza. Essa contemplação da beleza traz paz e alegria. Isso é muito diferente de uma “atitude de consumo” que visa explorar um objeto pelo prazer – uma atitude que traz inquietação, impaciência, e um intenso desejo pela satisfação.

      Talvez uma analogia nos ajuda a entender melhor. Uma vez tive a oportunidade de ver o trabalho de um “artista de chocolate”. O artista tinha uma exposição de dezenas de esculturas elaboradas de barcos, flores, pássaros, torres, e prédios. O que fazia essas esculturas serem tão impressionantes é o fato de que elas eram todas feitas de chocolate ao leite e chocolate branco!

      Eu posso ter duas atitudes diferentes com relação a essas esculturas de chocolate. Por um lado, eu poderia contemplá-las como obras de arte, admirando sua beleza e me permitindo ser tomado pela sua imensidade, suas proporções perfeitas, os detalhes intricados, e o trabalho do artesão, ficando assim maravilhado de que essas delicadas obras de arte tenham sido feitas somente de açúcar e cacau.

      Por outro lado, eu poderia ignorar o fato de que essas esculturas são belas obras de arte feitas para serem contempladas, e vê-las primariamente como doces a serem devorados – chocolates gostosos que iriam satisfazer meus desejos! Essa última abordagem, entretanto, seria uma degradação das obras de arte do artesão, reduzindo-as a meros objetos a serem consumidos para meu próprio prazer.

      De modo similar, a sensualidade por si mesma falha em ver o corpo humano como uma bela obra-prima da criação de Deus, pois reduz o corpo a um objeto a ser aproveitado para satisfazer os desejos sensuais de outrem. “Portanto, a sensualidade realmente interfere com a apreensão do belo, até mesmo da beleza corporal, sensual, pois introduz uma atitude de ‘consumo’ ao objeto: ‘o corpo’ é então considerado como um potencial objeto a ser usufruído”.

Michelangelo e Playboy

      Isso também ajuda a explicar uma grande diferença entre a pornografia e a boa arte clássica que mostra a nudez de uma pessoa. Tanto a revista Playboy quanto algumas obras de arte dos Museus Vaticanos, por exemplo, podem apresentar os órgãos sexuais de um corpo humano. Na verdade, algumas pessoas na indústria pornográfica dizem que suas figuras são apenas outra forma de arte, mostrando a beleza do corpo. Alguns defensores da pornografia chegaram a perguntam porque a Igreja condena a pornografia mas permite a nudez mostrada em alguns de seus museus!

      A pornografia da Playboy, entretanto, não chama atenção para a beleza do corpo humano. Chama atenção para o corpo como objeto a ser usado para a satisfação sexual pessoal. No final, é uma redução da pessoa humana ao valor sexual do corpo. Ao contrário, a boa arte que mostra o corpo não é uma redução da pessoa, mas um engrandecimento dela, levando-nos a contemplar o mistério da pessoa humana como uma obra-prima da criação de Deus.

      A boa arte nos leva a uma pacífica contemplação da verdade, do bem, e do belo, incluindo a verdade, o bem e a beleza do corpo humano. A pornografia, por outro lado, não nos leva a tal contemplação, mas instiga em nós o desejo sensual pelo corpo de outra pessoa como objeto a ser explorado para nosso próprio prazer. Falando em termos simples: provavelmente não há tantos homens que caem em pecado ao contemplar as famosas pinturas de Adão e Eva na Capela Sistina. Mas provavelmente poucos serão os homens que não cairão em pensamentos impuros ao olhar para fotos da Playboy. (1)

Escravos da sensualidade

      Uma terceira razão pela qual João Paulo II se preocupa com a sensualidade é que, se ela é deixada “solta”, nós nos tornamos escravos de tudo que estimula nosso desejo sensual. Por exemplo, um homem dado à sensualidade vê sua vontade ser tão fraca a ponto de se deixar levar por qualquer valor sexual que apareça imediatamente aos seus sentidos. Sempre que encontra uma mulher vestida de certa forma, ele não pode evitar de olhar para ela com pensamentos impuros. Sempre que vê imagens de mulheres na TV, na Internet, nos outdoors, ele não consegue resistir e olha para elas, pois deseja o valor sexual da mulher e quer aproveitar o prazer que obtém nesses olhares.

      Especialmente em uma cultura altamente sexualizada como a nossa, somos constantemente bombardeados com imagens sexuais explorando nossa sensualidade, fazendo-nos focalizar o corpo do sexo oposto. Podemos, de fato, ser facilmente escravizados, pulando de um valor sexual para o outro, e para o outro, e para o outro, à medida que eles aparecem para nossos sentidos. Como observa João Paulo II, a sensualidade por si só “é caracteristicamente volátil, voltando-se para onde quer que encontre esse valor, sempre que um ‘possível objeto de prazer’ aparece”.

“Eu posso olhar, mas não posso tocar”

      Além do mais, em um de seus pontos mais profundos nessa seção, o Papa João Paulo II nos alerta que uma pessoa pode usar o corpo de outra pessoa mesmo quando essa pessoa não está fisicamente presente. Um homem, por exemplo, não precisa ver, ouvir ou tocar uma mulher para se aproveitar de seu corpo para seu próprio prazer. Através de sua memória e imaginação, ele “pode fazer contato até mesmo com o ‘corpo’ de outra pessoa que não está fisicamente presente, experimentando o valor desse corpo na medida em que constitui um ‘possível objeto de prazer’”.
 
      Vivemos em uma cultura onde muitos homens dizem a si mesmos: “O que tem de errado em ter pensamentos impuros por uma mulher? Não estou machucando ninguém quando faço isso!” Até mesmo alguns homens casados podem pensar: “Não estou cometendo adultério quando olho para uma mulher desse jeito. Ainda sou fiel à minha esposa. Eu posso olhar; só não posso tocar”. Entretanto, devemos nos lembrar das severas palavras de Cristo sobre esse assunto: “Todo aquele que olha para uma mulher com luxúria já cometeu adultério com ela em seu coração” (Mt 5, 28).

      Os insights de João Paulo II nos ajudam a explicar o que realmente está acontecendo quando um homem olha com luxúria para uma mulher, e porque consentir com pensamentos impuros e fantasias sexuais é sempre moralmente errado e degradante para as mulheres. Na mente de um homem com luxúria, a mulher fica reduzida ao valor sexual do seu corpo. Ele a trata não como uma pessoa, mas como um corpo a ser explorado para seu próprio prazer, em seus olhares e pensamentos. E isso pode acontecer mesmo quando a mulher não está por perto, pois ele pode ainda manter contato com seu corpo e explorá-la para sua satisfação sexual em sua memória e imaginação. Isso é utilitarianismo grosseiro – muito distante do autêntico amor.

      Em resumo, João Paulo II enfatiza que a sensualidade sozinha não é amor. Pode ser “matéria-prima” para o desenvolvimento do amor verdadeiro. Mas esse desejo pelo valor sexual do corpo deve ser complementado por outros elementos mais nobres do amor, tais como a boa vontade, a amizade, a virtude, o comprometimento total, e o amor-doação-de-si (temas a serem discutidos nos próximos artigos). Se a sensualidade não está cuidadosamente integrada com esses elementos mais nobres do amor, o desejo sensual pode ser danoso a um relacionamento. Na verdade, pode destruir o amor entre um homem e uma mulher, e pode impedir que o amor possa um dia se desenvolver entre um homem e uma mulher.

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Notas:
(1) O Papa discute especificamente esse tópico sobre arte e pornografia posteriormente em “Amor e Responsabilidade”. Primeiramente, ele diz que a arte pode às vezes representar o aspecto sexual do homem e da mulher e seu amor um pelo outro. “A arte tem um direito e um dever, pelo bem do realismo, de reproduzir o corpo humano, e o amor de homem e mulher como o são na realidade, a fim de falar a verdade integral sobre eles. O corpo humano é parte autêntica da verdade sobre o homem, assim como seus aspectos sensuais e sexuais são parte autêntica da verdade sobre o amor humano”. O Papa João Paulo II segue dizendo, entretanto, que seria errôneo mostrar os valores sexuais de maneira a obscurecer o verdadeiro valor da pessoa. E seria errôneo retratar o aspecto sexual do relacionamento de um casal de modo a obscurecer o autêntico amor de um pelo outro, que é muito mais do que sexual. Esse é o problema com a pornografia: ela chama atenção para o aspecto sexual de um homem ou mulher de um modo que nos impede de ver o verdadeiro valor da pessoa e a verdade integral do amor. “A pornografia é uma marcada tendência a acentuar o elemento sexual com o objetivo de induzir o espectador ou leitor a acreditar que os valores sexuais são os únicos valores reais da pessoa, e que o amor nada mais é do que experimentar somente esses valores sexuais. Essa tendência é danosa, pois destrói a imagem integral daquele importante fragmento da realidade humana, que é o amor entre homem e mulher. Pois a verdade sobre o amor humano sempre consiste em reproduzir o relacionamento interpessoal, não importando o quanto os valores sexuais possam predominar naquele relacionamento. Assim como a verdade sobre o homem é que ele é uma pessoa, não importando o quão conspícuos são os valores sexuais em sua aparência física.”

O Autor: Edward P. Sri é professor assistente de Teologia do Benedictine College, em Atchison, Kansas, Estados Unidos, e autor de vários livros de Teologia e espiritualidade.

Fonte:http://vidaecastidade.blogspot.com.br/